Napster a primeira rede P2P a disruptar uma indústria

Há 20 anos, Napster atropelou a indústria da música.

Programa fez primeira ruptura digital de uma indústria tradicional, substituindo CDs por arquivos MP3; hoje, o mercado tem novo fôlego graças aos serviços de streaming.

No hit “1999”, lançado em 1982, Prince cantou que festas não foram feitas para durar eternamente. Para o mercado da música, a canção de tom profético virou realidade às vésperas da virada para o século XXI. Em 1999, a indústria fonográfica viveu um pico histórico de faturamento, com o auge da venda de CDs. O novo milênio despontava com otimismo – mas a ressaca foi forte: os números de gravadoras e artistas desidrataram na década seguinte e demoraram a se recuperar. Até hoje, mesmo com novo fôlego dado por serviços de streaming, há quem duvide que se retorne àquele patamar. E a culpa é do Napster, primeiro programa de compartilhamento de arquivos mp3, lançado em junho de 1999. 

Google do mp3

Assim como Napster foi para a música no final da década de 90 e que revolucionou o compartilhamento de músicas, arrepiando os cabelos das gravadoras e artistas, como foi o caso do Metallica que lutou ferozmente contra o Napster. Assim também é o Bitcoin hoje para os bancos e sistemas financeiros tradicionais. O fato é que o Napster inaugura as primeiras redes P2P.

Napster foi fundado por Shawn Fanning e Sean Parker. Inicialmente, o Napster foi concebido como um serviço independente de compartilhamento de arquivos peer-to-peer por Shawn Fanning. O serviço funcionou entre junho de 1999 e julho de 2001. Sua tecnologia permitiu que as pessoas compartilhassem facilmente seus arquivos MP3 com outros participantes. Embora o serviço original tenha sido encerrado por ordem judicial, a marca Napster sobreviveu depois que os ativos da empresa foram liquidados e comprados por outras empresas através de processos de falência.

Embora já existissem redes que facilitassem a distribuição de arquivos pela Internet, como IRC, Hotline e Usenet, o Napster tinha uma interface especializada e amigável para troca de MP3. No seu auge, o Napster tinha cerca de 80 milhões de usuários cadastrados. O Napster tornou relativamente fácil para os entusiastas da música fazer o download de cópias de músicas que de outra forma eram difíceis de se obter, como músicas mais antigas, gravações inéditas de concertos.

O cérebro por trás do Napster era um universitário de 19 anos: Shawn Fanning. Um moleque que passava dias em discussões de fóruns e espaços de bate papo na internet. Como outros garotos conectados da época, ele tinha dificuldades em achar arquivos mp3 das músicas que gostavam na web. Sua ideia era simples: criar uma espécie de “Google do mp3”. Uma ferramenta que listasse todos os arquivos do tipo disponíveis na internet. 

Com “alma hacker”, ele foi além: criou um programa que conseguia conectar diretamente os discos rígidos de computadores, permitindo que as pessoas trocassem os arquivos hospedados em suas máquinas. Era como gravar uma fita K7 para alguém próximo – só que de forma digital. Ao divulgar a ideia para um amigo virtual, Seth McGann, ele recebeu uma resposta enigmática. “Você sabe que isso vai mudar tudo, né?.”

O Napster era uma rede P2P de primeira geração e não era totalmente descentralizado. Havia um servidor central que unia todas as pontas.

O Napster funcionava da seguinte forma: Um usuário baixava o software do Napster e nomeava uma pasta no seu disco rígido para armazenar as músicas baixadas (e músicas disponíveis para serem acessadas por outros usuários). O software adicionava títulos aos arquivos de música a um diretório central para habilitar a pesquisa a outros usuários. Um usuário podia então procurar as músicas por títulos e baixar esses arquivos diretamente das pastas de outros usuários. Os próprios arquivos de música não existiam em um diretório central, mas eram transferidos diretamente do computador de um usuário para outro, daí o nome ‘peer-to-peer’ (P2P).

Com essa característica centralizadora, o Napster sofreu muitos ataques da indústria da música, com o desligamento do seu servidor central em muitos momentos. Várias batalhas legais foram travadas e por fim o Napster perdeu a luta e teve seus servidores desligados em julho de 2001, cessando as operações e foi finalmente adquirido pela Roxio. Em sua segunda encarnação, o Napster tornou-se uma loja de música on-line até que foi adquirida pela Rhapsody da Best Buy em 1 de dezembro de 2011. Em 14 de julho de 2016, a Rhapsody eliminou a marca Rhapsody em favor da Napster e, desde então, seu serviço passou a ser internacionalmente conhecido como Napster.

Empresas e projetos posteriores seguiram com sucesso seu exemplo de compartilhamento de arquivos P2P, como Gnutella, Freenet, Kazaa, BearShare e muitos outros. No entanto, alguns serviços, como LimeWire, Scour, Grokster, Madster e eDonkey2000, foram derrubados ou alterados devido a problemas de direitos autorais.

Evolução da tecnologia de P2P

O Napster e eDonkey2000, que usavam um modelo baseado em servidor central, podem ser classificados como a primeira geração de sistemas P2P. Esses sistemas dependiam da operação dos respectivos servidores centrais e, portanto, eram suscetíveis ao encerramento centralizado. A segunda geração do compartilhamento de arquivos P2P abrange redes como Kazaa, Gnutella e Gnutella2, que são capazes de operar sem servidores centrais, eliminando a vulnerabilidade central conectando usuários remotamente entre si.

A terceira geração de redes de compartilhamento de arquivos é a chamada rede escura, incluindo redes como a Freenet, que fornecem anonimato aos usuários além da independência dos servidores centrais.

Apesar do desaparecimento da Napster, o compartilhamento de arquivos P2P ganhou mais força. A indústria da música, no entanto, continuou a perseguir os sucessores de Napster, incluindo Kazaa, Grokster, Morpheus, Streamcast, Madster e outros.

Do ponto de vista tecnológico, há uma diferença importante entre essas plataformas P2P e a tecnologia pioneira da Napster. Essas redes não são mantidas ou controladas por um organismo central. Em vez disso, o software configura usuários como parte de um sistema de nós que se interligam. Além disso, importante frisar, a instalação de pesquisa não é conduzida através de um mecanismo de busca centralizada que contêm os títulos dos arquivos disponíveis. Em vez disso, todas as máquinas da rede comunicam os arquivos disponíveis usando uma abordagem de consulta distribuída.

Estrago

O download ilegal se tornou hábito corrente para os fãs de música – a ponto da Apple criar um dispositivo só para execução de mp3, o iPod, em 2001. A empresa só “corrigiu” seu caminho dois anos depois, quando lançou o iTunes, programa que foi desativado apenas na última semana e que permitia venda de arquivos digitais de música, com o apoio das gravadoras, com cada fonograma por US$ 0,99. Foi pouco eficaz: para muita gente, não valia a pena mais pagar. Em países como o Brasil, era ainda um valor proibitivo – especialmente por conta de questões como cartões de crédito internacional. A pirataria oferecia um serviço melhor para o usuário. 

“A indústria demorou demais a reagir. Depois, perdeu muito tempo tentando lutar contra”, diz a jornalista Fabiana Batistela, organizadora da Semana Internacional da Música (SIM) de São Paulo. Em vez de procurar oferecer algo melhor ao usuário, tratou-o como criminoso – nos EUA, houve casos de gente que foi parar na cadeia por baixar um mp3. “As coisas só mudaram quando a indústria passou a tratar a pirataria como concorrente e não como inimigo”, avalia Bussab. Um exemplo? Oferecer o acesso a uma grande biblioteca de músicas por um preço baixo, pago mensalmente pelo usuário. 

Ele demorou a engrenar: o primeiro serviço de streaming da história, o Rhapsody, nasceu em 2002 e tinha 175 mil músicas. Estava longe de dar conta do catálogo das grandes gravadoras. Ao ver seu navio afundar, porém, as gravadoras perceberam que esse tipo de negócio poderia fazer sentido. Um deles nasceu na Suécia em 2008, pelas mãos de Daniel Ek, um empreendedor serial que já havia sido comandado outro serviço pirata, o uTorrent. Era o Spotify. 

Com o tempo, as gigantes de tecnologia também aderiram: hoje, Apple, Amazon e Google têm suas próprias plataformas de streaming. A ideia engatinhou em sua primeira década, mas hoje é a principal esperança da indústria. “Os últimos anos para a indústria da música foram incríveis”, diz Joel Waldfogel, professor de Economia da Universidade de Minnesota e autor do livro Digital Renaissance (ainda sem tradução). “As receitas cresceram substancialmente em razão do streaming pago.”

Punk para negócios

No entanto, ainda há dúvidas se o modelo é sustentável – hoje, o padrão do mercado é ceder 70% de suas receitas para os donos dos fonogramas, ficando só com 30% do que recebe com assinaturas e anúncios. Com 100 milhões de assinantes e capital aberto na bolsa de Nova York, o Spotify só teve lucro em dois trimestres. Outros serviços seguem operando no vermelho ou embutidos entre números positivos das gigantes de tecnologia. A esperança é de que, conforme ganhem escala, as perdas se tornem parte do passado. “Tem muita gente que ainda não paga nada por música, mas é questão de tempo”, aposta Bruno Vieira, diretor geral da Deezer no Brasil. 

Quanto aos músicos, são frequentes as reclamações de artistas que recebem apenas alguns centavos por suas reproduções nas plataformas digitais. Há quem diga que vai ser sempre assim: “O Napster acabou com a economia da escassez do mundo físico”, avalia Sérgio Branco, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). “Sem um suporte físico, não há mais cópias ou exemplares, então as remunerações tem que cair mesmo.” 

Mesmo com um cenário em aberto, até mesmo o Napster entrou na onda do streaming. Após a empresa original ter fechado suas portas, sua marca foi vendida e rodou pela mão de corporações – incluindo a varejista americana Best Buy. Desde 2011, está na mão da RealNetworks e tomou o lugar da marca Rhapsody como serviço de streaming. Hoje, tem 2,5 milhões de usuários e cobra mensalidade de R$ 16,90 pelo acesso a 62 milhões de canções. 

O que podemos apreender dessa história, é o que convencionou-se a chamar de poder das multidões, associada à alta tecnologia baseada em sistemas open source, concedeu a um programador em um dormitório em uma universidade, criar algo que quase matou as gravadoras, antes inclusive do estouro da bolha das ponto.com no início do século XXI. Em 2013 nascia o Bitcoin que veio para disruptar os bancos e os sistemas de pagamentos.

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Em colaboração com Bruno Romani e Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo e trechos do livro Cryptoeconomia de Leandro França de Mello

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